Quando fazia meu curso de Pós-Graduação em Psicopedagogia Clínica, em uma dinâmica foi feita a seguinte solicitação numa turma com 50 alunos:

– Relate um acontecimento que marcou sua vida no passado.

Para 90%, entre eles psicopedagogos, pedagogos, psicólogos e professores, fatos relacionados com a época do primeiro grau ou relacionamentos familiares desta época, marcaram profundamente suas vidas.

Alguns relataram de forma emocionada que eram tímidos na escola e sentiam muita vergonha quando o professor pedia para se exporem perante a sala lendo um texto ou respondendo uma pergunta ou até mesmo apresentando um trabalho.

Ouvi relatos de pessoas que eram agressivas com outros colegas no sentido de se protegerem.

Outros relataram que passaram a não gostar de determinada matéria por causa do comportamento agressivo ou opressor do professor que o obrigava a realizar determinadas tarefas e quando estas não eram feitas de forma correta, o humilhava perante a turma.

Ouvi relatos sobre professores que separavam a turma colocando os ´bons alunos´ para sentarem na frente e os ´maus alunos´ para sentarem atrás.

Por outro lado, observamos relatos de pessoas que passaram a gostar mais de uma matéria porque o professor lhes deu incentivo, elogiou, apoiou, desenvolvendo assim o prazer em estudar determinado assunto.

Outras pessoas relataram situações com seus pais, onde sentiram-se desamparadas e incompreendidas. Disseram que os pais impunham seus pontos de vistas e não as ouvia em situações em que se sentiam injustiçadas ou inseguras.

Relataram que muitas vezes eram menosprezadas, os pais as agrediam, quando choravam apanhavam mais ainda e ouviam que era para engolirem o choro.

Percebi ainda que as pessoas desta turma para contarem estes casos de infância tinham o mesmo comportamento que relatavam.

Sentiam ansiedade, vergonha, nervosismo e iniciando suas falas pedindo desculpas para os ouvintes, pois estavam muito nervosas.

Notamos dois fatores dominantes no relato destas pessoas.

O primeiro deles é a manifestação de um aprendizado comportamental oriundo do próprio lar.

O sentimento de timidez, vergonha, agressividade perante a turma já era a manifestação de experiências anteriores no convívio com a própria família.

Na escola passavam a reagir conforme suas referências emocionais adquiridas anteriormente na família. Referências de medo por assistirem discussões e brigas dos pais ou mesmo coação e repreensões que recebiam destes; referências de tristeza geradas por experiências de punição ou repreensão por algo que deixaram de fazer ou conquistar, muitas vezes porque ainda não tinham a capacidade de fazê-lo, mas sofriam a exigências da família.

Muitas vezes o sentimento de incapacidade quando não conseguiam realizar algo e então assistiam à reprovação e manifestação de decepção dos pais ou familiares.

O segundo fator dominante era a influência do comportamento do professor, muitas vezes autoritário, muitas vezes compreensivo.

Houve um relato de um professor que foi profundamente marcado quando estava no segundo ano do primeiro grau por uma professora que discriminava os alunos hiperativos da turma. Este resolveu se tornar professor para evitar que os próprios filhos e outras crianças viessem a passar por tratamento semelhante ao que tivera no passado.

Por outro lado, outros relatos apresentavam tratamentos semelhantes que causaram o desinteresse dos alunos que não viam o momento de terminar os estudos para se livrarem daquele professor.

Percebemos que os fatos em si eram parecidos, mas as interpretações dos mesmos davam origem a comportamentos e reações completamente diferentes.

O interessante é que estes comportamentos continuam a ser predominantes no indivíduo mesmo depois de adulto, manifestando timidez, dificuldade de expressão, dificuldade de comunicação, dificuldade de relacionamentos, auto cobrança e exigência de perfeccionismo de si mesmos e das pessoas com as quais convivem.

Isso acontece porque na fase até 9 a 11 anos a criança está formando suas referências e padrões de comportamentos que irão determinar a forma como agirão aos acontecimentos pelo resto de suas vidas.

O problema acaba se tornando um ciclo vicioso, pois inúmeros professores e pais continuarão a manifestar seus padrões e aprendizados emocionais da infância na criação dos próprios filhos e literalmente programando-os para repetirem comportamentos limitantes ao desempenho.

Daí a necessidade urgente de nossos professores e pais terem recursos para lidar com seus filhos e assim moldarem futuros adultos vencedores.

E você… tem algo a compartilhar de experiências como pais ou educadores observando esses comportamentos em pessoas que você conhece?

Em você, consegue identificar algum comportamento que te incomoda hoje e que você consegue identificar como sendo heranças do passado?

Grande abraço e obrigado por compartilhar suas impressões.

Tenha uma boa semana!