Para a maioria dos leigos, acostumados à hipnose de palco, o assunto se reveste de um misto de curiosidade e receio, face à mítica criada em torno do tema. Apesar dos mitos que envolvem o hipnotismo, tais como “Eu vou revelar meus segredos mais íntimos?”, ou “E se eu não voltar do transe?”, parte deles atribuídos à hipnose para entretenimento, a hipnose clínica, por sua vez, vem ganhando espaço na mídia e perante os profissionais da saúde.

imagesÉ bom lembrar que a hipnose é reconhecida como ferramenta complementar para tratamentos médicos, odontológicos, psicológicos e fisioterapêuticos, pelos respectivos Conselhos Federais. Não obstante, muitos destes profissionais da saúde ignoram as resoluções de seus Conselhos sobre o assunto.

Hipnose trabalha crenças. Robert Dilts, em seu livro “Crenças – caminhos para a saúde e o bem-estar” afirma que os sistemas de crenças são a grande moldura de qualquer trabalho de mudança. E sentencia: para mudar uma crença de identidade ou limitante é preciso saber como proceder; ser congruente sobre o objetivo desejado e crer que é possível mudar.

Numa palestra para amigos espíritas desejosos de conhecer mais sobre a hipnose, apresentei à plateia um boneco de pano que eu mesmo havia adaptado para dar-lhe aparência de um boneco de vodu. Eu havia visto o mentalista Derren Brown praticar esta técnica. Aticei a imaginação dos presentes dizendo que o “Charlie” me fora dado por um militar que serviu no Haiti, e que me advertira que o boneco não tinha alma. Chamei uma moça que parecia ser bastante susceptível e perguntei-lhe se concordava em emprestar sua alma para o Charlie, com o que ela anuiu. Pedi-lhe o pingente de uma corrente que ela portava no pescoço e o introduzi numa fenda existente no peito do boneco, dizendo que a partir daquele momento uma forte conexão entre ela e o Charlie se estabeleceria.

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Num dado momento abracei com os dedos o pescoço do boneco, e concomitantemente ela apresentou dificuldades para falar, exibindo sinais de asfixia. Afrouxei os dedos e comecei a movimentar lateralmente os braços do Charlie, no que ela imediatamente passou a erguer seus braços em sintonia com os movimentos do boneco. Após várias demonstrações da suposta conexão, perguntei-lhe porque ela acreditava na sintonia com Charlie. Ela fez alusão ao seu pingente inserido no boneco e neste momento tirei do bolso da minha calça o pingente que eu havia discretamente guardado sem que ela percebesse. Diante da surpresa geral, comentei sobre o quanto as nossas crenças podem nos limitar, e que através da hipnose, é possível ressignificá-las.

hipnose-terapeuta-pendulo-1016-1400x800A ressignificação é um poderoso instrumento de que vale a Hipnose Condicionativa, vertente da hipnose patenteada pelo professor Luiz Carlos Crozera. Traumas e crenças podem ser ressignificadas de tal modo que não mais representem um bloqueio ou incômodo. Pela técnica do professor Crozera, Mecanismos de Condicionamento são implantados na mente, condicionamentos estes que serão racionalizados depois da sessão terapêutica.

Não por acaso o mundo corporativo está descobrindo a hipnose como ferramenta de eliminação de estresse, ansiedade, traumas, fobias e diversos outros transtornos que obstaculizam a consecução daquilo que é fundamental para o sucesso das empresas: Resultado.

E considerando que toda hipnose é uma auto-hipnose, todo o potencial dela está em nossas mãos. No curso Alpha ministrado pelo Instituto Ferrarezi é visível este potencial quando o instruendo passa por um processo de catarse na libertação de suas crenças limitantes.

Em seu livro “Práticas da Hipnose na Anestesia”, o Dr. José Monteiro assevera que praticamente em todas as perturbações psicossomáticas a hipnose tem indicação. Para ele, o valor da hipnose na anestesiologia é grande, porque com ela nós auxiliamos os pacientes no pré-anestésico, com confiança e segurança na nossa anestesia por drogas.

hipnose-1Tive oportunidade de por à prova os ensinamentos do Dr. Monteiro. Estávamos eu e minha esposa no intervalo de um curso sobre Florais de Bach quando a Dona Cleusa, servidora de uma cantina local, inadvertidamente colou sua mão esquerda molhada no congelador da geladeira. Alguém conseguiu descolar a mão dela jogando água morna congelador. Após o pânico inicial pelo desespero de Dona Cleusa com sua dor insuportável, minha esposa sugeriu que eu hipnotizasse a pobre senhora para minimizar aquele sofrimento. Conduzi Dona Cleusa até o lado externo da cantina e iniciei um processo de relaxamento que durou no máximo 3 minutos. Indaguei que nota ela daria para a dor na palma da mão numa escala de 0 a 10 em que 10 seria insuportável. – Ai, nota mil! – disse ela no desespero. Feita a indução, em que pedi que ela fechasse os olhos e seguisse meus comandos, fui desviando sua atenção e fazendo um aprofundamento do transe. Pedi-lhe que se imaginasse descendo uma escada em que cada degrau a levaria a um relaxamento cada vez mais e mais profundo. Em seguida, fiz com que Dona Cleusa visualizasse sua mão numa água fria, refrescante, que aos poucos ia anestesiando a mão por inteiro até na altura do antebraço. Continuei neste processo por mais alguns minutos até que ela já não sentisse mais a mão e consequentemente a dor. Retirei-a do transe, fazendo-a retornar sentindo-se melhor do que quando entrara. Expliquei-lhe que com o tempo a dor retornaria, porém com menor intensidade e a tempo de passar pela devida medicação. Soube depois que ela perguntou à minha esposa “O que ele fez comigo? Não estou sentindo mais o meu braço nem minha mão…” De fato, o nível de dor havia chegado a zero, conforme suas próprias palavras. Eu havia estimado tratar-se de queimadura de primeiro grau, porém, duas enfermeiras que estavam fazendo o curso de Florais comigo foram taxativas: queimadura de segundo grau! “Doeu mais do que o parto normal dos meus dois filhos” diria Dona Cleusa mais tarde.

Aquela foi a primeira vez em que pude tratar via hipnose alguém em estado emergencial de dor intensa e o resultado foi fantástico. O mais incrível é que Dona Cleusa ainda conseguiu fazer o seu delicioso almoço naquele mesmo dia.

Minha primeira experiência na aplicação de uma sessão terapêutica de hipnose foi com um familiar que padecia de depressão crônica e síndrome do pânico. O resultado foi tão encorajador que mudou nossas vidas e para muito melhor, mas isto é tema para outro artigo.

A conclusão é que, indubitavelmente, tal como apregoado pelo professor Crozera, a hipnose, cada vez mais, também será parte integrante da medicina do século XXI.

 

Assinatura-Carlos-Ferreira

Referências Bibliográficas:

CROZERA, L. C. – Apostila Técnica Científica – Curso de Hipnose Condicionativa – Técnica – Condicionamento Mental – Instituto Brasileiro de Hipnologia, Jaú, 2015.

DILTS, R.  et al. – Crenças – caminhos para a saúde e o bem-estar. Ed. Summus Editorial, São Paulo, 1993.

MONTEIRO, J. – Práticas da Hipnose na Anestesia. Ed. J. Monteiro, São Paulo, 1985.